Durante a minha adolescência descobri que tinha uma característica que não sabia possuir. Me falaram, de repente, que eu era Sanpaku. Eu fiquei me perguntado: que diacho é sanpaku?

A partir daí, aquilo se tornaria recorrente. Pessoas na rua, colegas de trabalho e amigos próximos reafirmavam: você é sanpaku. Para piorar a situação, surgiam perguntas que também se tornaram recorrentes: “você deixa as coisas caírem com frequência? Você sofre muitos acidentes? você tem maus presságios?”. E eu não tinha como dizer: não, eu não tenho nada disso. Tudo aquilo acontecia comigo.

Sanpaku_Picto

Para piorar ainda um pouco mais as coisas, ainda vinham as afirmações.
E a mais drástica de todas me deixou chocado. Todo sanpaku morre tragicamente. Eu pensei: putz, tou lascado. E vinham os exemplos de sanpakus famosos. James Dean, Elvis Presley, Marilyn Monroe, John e Bob Kennedy, Jim Morrison, John Lenon, Lady Di, Michael Jackson e Ayrton Sena do Brasil. Eu falei, “bom, pelo menos todo sanpaku era rico e famoso”. Bem, pelo que parece, essa não é uma característica comum em todos os casos. Pelo menos, não no meu.

Mas como era isso de ser sanpaku? Bom, o que fiquei sabendo é que o sanpaku é quem tem três brancos nos olhos. Ou seja, além dos brancos laterais o Sanpaku também possui um branco ou acima ou abaixo da íris. Mas não tinha mais informações sobre o assunto. Só recentemente tive acesso a informações mais precisas através de diversos sites especializados no assunto.

Finalmente descobri que sanpaku é uma palavra japonesa, que significa “três brancos”. Uma pessoa tem olhos sanpaku quando a área branca dos seus olhos é visível também na parte inferior, entre a íris e a pálpebra. O normal são duas partes brancas, uma de cada lado. Olhe num ângulo de 45 graus para cima, se ficarem visíveis 3 partes, então você é sanpaku. Pelo menos uma coisa me tranquilizou. Tem muito sanpaku por aí.

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O conceito de sanpaku chega ao ocidente em 1967, através do livro “Sois todos sanpaku“, do japonês George Ohsawa, criador da macrobiótica.  No livro, o autor ensina como “Curar a si mesmo, antes de fazer qualquer outra coisa”.  Ele é taxativo: afirma que pessoas com olhos sanpaku são portadoras de um grave estado de desequilíbrio físico e espiritual. Ohsawa escreveu:

O sanpaku perdeu o contato consigo mesmo, com seu corpo e com as forças naturais do universo. Os sintomas do sanpaku podem ser reconhecidos como fadiga crônica, baixa vitalidade sexual, reflexos ruins, mau humor, incapacidade de dormir bem e falta de precisão nos pensamentos e ações. A alimentação correta é a maneira simples e natural de corrigir a perigosa condição sanpaku e criar um estado de saúde, harmonia e bem-estar, internos e externos.

Trágico, heim? Mas pelo menos ele aponta uma saída. A questão é que a solução para o problema exige um estilo de vida bem diferente do meu, que sou chegado a skate e rock’n’roll. E tem mais: segundo especialistas, a condição de sanpaku é um problema de saúde pública, que exige cuidados especiais e precisa ser divulgado para todo o mundo. Os orientais são ainda mais radicais. Eles consideram a condição de sanpaku uma maldição.

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O que fazer então? Decidi transformar isso em uma poética e passei a realizar diversos trabalhos tendo como tema os sanpakus. Essa é a primeira série de desenhos realizados com nanquim e que utilizo diversos suportes como antigos blocos de anotação, papel de embrulhos e papel de embalagem de cigarros. Projeto o olhar sanpaku em figuras de outsiders, comuns ao mudo do imaginário underground. Nada melhor que juntar Arte & Vida.

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